Candido Figueredo (jornal ABC Color)

Figueredo: “Se eu falar que não tenho medo, vou mentir. Todo ser humano no fundo tem um temor. Só que o vírus do jornalismo é mais forte que isso. A gente diz que não vai fazer isso, aquilo, mas acaba sempre voltando. Por quê? Porque a gente tem jornalismo no sangue.”

Foto: Leandro Melito

Por Giulia Afiune (3º ano/Cásper Líbero)

O jornalista Candido Figueiredo, do jornal ABC Color, do Paraguai, contou como investiga o narcotráfico na cidade de Pedro Juan Caballero, na fronteira entre o Brasil e a Bolívia na palestra “Investigação nas Fronteiras do Centro-Oeste”, proferida no 7o Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, no sábado, 14 de julho.

Segundo ele, traficantes do mundo inteiro disputam o domínio sobre a cidade, onde as maiores plantações de maconha da América do Sul fornecem a droga de melhor qualidade, com 7% de THC. A corrupção de políticos e policiais e os assassinatos impunes são comuns no local e não estão desconectados do Brasil: 80% da maconha consumida no país vem do Paraguai. Candido vive os efeitos disso. Ele recebe constantes ameaças de morte e, desde que teve sua casa metralhada por traficantes, há 17 anos, é escoltado dia e noite por guardas armados. Como ele mesmo define, ser jornalista em Pedro Juan Caballero pode custar caro, mas ele acredita na sua missão. “Fazemos isso porque queremos uma sociedade, um país e pessoas melhores. Como? Denunciando o tráfico, as mortes e a corrupção.”

Como você se sente trabalhando nesse lugar?
Sempre falo que a gente se acostuma com muitas coisas. E a gente já se acostumou a viver assim. Estamos fazendo o que devemos fazer como jornalista dentro dos limites da situação que a gente vive. Tem que ter muita segurança, cuidar do jeito que a gente escreve e cuidar, especialmente, das fontes que a gente mantém.

Não sente medo?
Se eu falar que não tenho medo, vou mentir. Todo ser humano no fundo tem um temor. Só que o vírus do jornalismo é mais forte que isso. A gente diz que não vai fazer isso, aquilo, mas acaba sempre voltando. Por quê? Porque a gente tem jornalismo no sangue. A gente gosta, apesar de tudo, do que tá fazendo.

Você contou que há 17 anos tem a proteção de guarda policial… Como é a sua rotina? 
Acordo às 5h30 da manhã. Quando saio do meu quarto, a primeira pessoa que vejo é o policial que cuida da parte de trás da casa. Tem um na frente também. E ele fala pra mim: “Bom dia, chefe, tá tudo bem, não temos novidades”. Eu entro no escritório – porque moro na redação por causa da segurança. Começamos a rotina, vemos o que acontece no Mato Grosso do Sul, se tem algum paraguaio envolvido em alguma coisa, e começamos a programar até oito horas da manhã, quando tem a troca de guarda. Saem dois policias, tem que assinar um livro, e depois entra mais dois. Quando vamos sair, eu aviso o policial que está na parte da frente, mas nunca falamos para onde vamos. Então o pessoal já prepara o carro, e nós nunca passamos pelas mesmas vias.

Quando você sai da redação, também é acompanhado?
Sim, por dois policiais que ficam dentro do carro fortemente armados. E outros dois permanecem na redação.

Quando vai entrevistar alguém, os policiais vão junto?
Sim. Mas tem muitas fontes que não querem o policial por perto, aí eles ficam dentro do carro. Às vezes até em outro carro que os caras não conhecem, mas estão sempre perto. Nós usamos um sistema de microfone e os policiais ouvem tudo que está sendo falado onde eu estou, é só apertar um botão. Tudo é dito em código e se tem algum perigo, eles ficam sabendo e entram no local.

Como que você sabe em quem confiar? Como faz a sua rede de fontes?

Não é fácil. Nós escutamos tudo. Cada informação você tem que checar, para saber se tem veracidade. Você tem que contrastar esses dados com outras informações. Na nossa área tem muita rivalidade entre traficantes. Então quem denuncia um traficante é o outro traficante. Já aconteceu na minha redação de jogarem um envelope em frente à redação com fotos comprometedoras. E então nós publicamos, porque pra mim tanto faz quem cai e quem fica. Então tem que ter muito cuidado. Temos um regra de não se apressar pra publicar, porque tem que ver, controlar, investigar se tem alguma veracidade, senão podemos ser utilizados para prejudicar outras pessoas.

E é complicado checar essas informações…
Muito complicado.

Em relação às fontes, como saber se estão falando a verdade?
Tem que ouvir tudo, controlar bem a fundo se é verdade e não se apressar para publicar. Normalmente, quando tem uma acusação, você já conhece a pessoa porque ela já está envolvida em alguma ilegalidade ou em tráfico. Ninguém denuncia uma pessoa por denunciar. Eu já conheço quem é o cara, normalmente. Então é só checar para que tenha uma veracidade.

Nesse lugar com tanta corrupção e impunidade, como sabe em quem confiar? Os guardas, por exemplo, são os mesmos há 17 anos?
Sim, são os mesmos. E tem outra coisa, eu ajudei eles a se formarem, eu banquei os estudos deles.  Esse ano, dois estão se formando e já há dois advogados entre eles. E eles são como filhos para mim, então eu posso contar quando preciso deles. É quase uma relação familiar, já.

Que dica daria para quem tá começando e tem interesse em cobrir o tráfico de drogas, não só em fronteiras, mas em grandes cidades também?
Primeiro, é se preparar da melhor forma possível: ler muito; estudar histórias de quem já está na área há mais tempo… E tem que ter integridade, porque dentro do tráfico de drogas você recebe todo tipo de proposta. Eu recebi proposta do Fernandinho Beira-Mar.

Que proposta?
Fiz uma matéria com ele quando ainda estava na clandestinidade. Ele gostou muito e disse: “Sempre um jornalista escreve mais do que eu falo. Mas você escreveu só o que eu falei. Então, quero te premiar. Diga a quantia”. Respondi que queria outra coisa: uma entrevista pessoalmente. Ele não podia fazer isso naquela época, mas foi pego na Colômbia, preso, e voltou para o Brasil. Ele me deu uma entrevista na carceragem da polícia federal em Brasília.

Então, é preciso se preparar, ter integridade, porque você vai passar por momentos difíceis e muita gente vai querer te usar. Em resumo, a dica é muito trabalho, muita integridade e muito conhecimento.

Em meio à palestra “Investigação nas Fronteiras do Centro-Oeste”, Figueredo respondeu à pergunta:

Como é a sensação de denunciar todo dia situações sistemáticas, mas só conseguindo resolver casos pontuais? Como é essa relação com a corrupção que dificulta essas coisas de serem punidas?

Você fica frustrado quando faz uma denúncia de plantação de maconha, e quem são os presos? São os camponeses que trabalham na plantação e  que não tem outra opção para dar de comer para a família dele. Um empresário do tráfico contrata ele para ir trabalhar no campo, nós entramos e as imagens mostram esses coitados sendo presos. Não chegamos nos barões da quadrilha, que tem muito dinheiro. É frustrante. Você sabe que esse cara não é um criminoso, que ele foi plantar maconha porque não tinha opção. Quem lota as prisões paraguaias é quem cuida da plantação, não o dono.

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Sobre o Congresso
O 7º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio/apoio da TV Globo, Correio Braziliense, Embraer, Estadão, Folha, Gol, Grupo Bandeirantes, Shopping Iguatemi, McDonalds®, O Globo, Oi, Tam e UOL, e cooperação de Associação Nacional de Jornais, Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center, Lincoln Institute of Land Policy, Oboré, Open Society Foundations, Panda Books, Propeg, Textual e UNESCO.

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